Maravilha de Cinema entrevista Alberto Araújo, diretor de “O Voo do Anjo”

O Maravilha de Cinema teve o prazer de conversar com Alberto Araújo, o diretor por trás do filme “O Voo do Anjo”. Em uma conversa exclusiva, Alberto nos contou um pouco sobre os bastidores da produção, suas inspirações e desafios durante o processo de filmagem. Confira abaixo como foi esse bate-papo:


1. O filme explora temas delicados como o suicídio e o luto. Como você aborda esses temas sem recorrer a clichês, e o que espera que o público tire dessas discussões?

– Realmente são temas muito sensíveis e é preciso ter cuidado para não recorrer a clichês. O suicídio é um assunto tão delicado que, na maioria das vezes, a sociedade prefere não encarar a realidade, chegando ao ponto de escondê-la ou deixá-lo nas entrelinhas, como por exemplo não divulgar a causa da morte de alguém que decidiu tirar a própria vida. Mas é aquela velha história, o fato de a gente fingir que o problema não existe não faz com que ele deixe de existir. Infelizmente, o índice de suicídio tem aumentado muito nessa sociedade que chamamos de moderna. Quando decidi escrever o roteiro de O VOO DO ANJO, eu tinha consciência de que precisaria pisar com cuidado nesse terreno arenoso.
São muitos os motivos que levam uma pessoa a perder o gosto pela vida, entre esses motivos, está a dor da perda de um parente muito próximo, como foi o caso dos personagens interpretados por Emílio Orciollo Neto e Dani Marques, que perderam a filha de forma trágica, levando à separação do casal e fazendo com que cada um encarasse o luto de forma diferente. Procurei levar essas camadas de sentimentos para a tela da forma mais verdadeira possível, porém, com uma certa leveza, deixando sempre uma luz ao fim do túnel. Acredito que o público vai assimilar bem essa história que, apesar de triste, traz uma luz de esperança.


2. O personagem Vítor, vivido por Othon Bastos, parece ser central na história. O que te inspirou a criar um personagem que é um professor aposentado e que acaba entrando em uma relação importante com Arthur, interpretado por Emílio Orciollo Netto?

– A ideia de escrever e produzir O VOO DO ANJO surgiu de uma conversa com Othon Bastos em um dos muitos encontros que tivemos no Rio, para onde, às vezes, vou, só para encontrá-lo. Tive o privilégio de dirigi-lo no meu primeiro longa VAZIO CORAÇÃO e, de lá para cá, estabelecemos uma grande amizade. Nesse encontro ao qual me referi, lá no Rio, ele reclamou que os atores mais velhos como ele já não recebem mais convites para papéis importantes no cinema. Respondi de imediato: “Vou escrever o roteiro de um filme para você estrelar”. Um ano depois, estávamos gravando O VOO DO ANJO, aqui em Goiânia. O personagem Vítor, professor de Física aposentado e apaixonado por poesia, principalmente Augusto dos Anjos, tem muito da personalidade do próprio Othon, sem falar que ele teve liberdade para mexer no roteiro, mudar frases inteiras. Às vezes, eu o corrigia em alguma fala, e ele respondia, brincando: “Não é fácil fazer filme de autor vivo. Se fosse um texto de Nelson Rodrigues, eu teria liberdade para mexer, e ele não estaria aqui pra reclamar”. O filme é sobre um casal que perde a filha, mas o personagem de Othon Bastos é o grande maestro do filme, é quem de fato ancora a história. Ou seja, eu quis dar um presente a ele, mas quem ganhou o presente fui eu, que tive a felicidade de, mais uma vez, dirigir o maior ator de cinema vivo deste país.


3. Como você escolheu o elenco, especialmente Othon Bastos e Emílio Orciollo Netto, e o que cada um desses atores trouxe para seus personagens que você acredita ser essencial para a história?

– Sobre a escolha do Othon Bastos já mencionei acima, agora, quem indicou o Emílio Orciollo Netto para o papel do Arthur foi o próprio Othon. E olha, a amizade longa e sincera de ambos trouxe uma química perfeita entre os dois personagens, fazendo com que essa sintonia fique muito evidente na tela. Já a escolha de Dani Marques para o papel de Karina foi uma escolha minha. Dani é uma atriz goiana que mora no Rio de Janeiro há muitos anos, onde tem feito bons trabalhos no teatro, TV e cinema. Um dia, vi no Instagram dela um vídeo teste e não tive a menor dúvida de que havia encontrado a atriz certa para viver Karina. Já Gustavo Duque, que faz o papel de Dr. Renan, um cirurgião plástico, filho do personagem de Othon Bastos, estava na minha lista havia muito tempo. Cida Mendes, que faz a empregada Dora e traz um escape cômico ao filme, é uma comediante mineira com uma trajetória linda.
A menina Catarina Meneghel, cujos pais são do Sul do país, mas não é parente da Xuxa Meneghel, é neta de um grande amigo. Quando a conheci, não tive dúvidas de que ela poderia ser o anjo do filme.

4. O título do filme, O Voo do Anjo, é bastante simbólico. Como ele se relaciona com a jornada emocional dos personagens?

– Eu gosto muito de escolher nomes para meus filmes e O VOO DO ANJO surgiu de imediato quando pensei na imagem de uma criança de cinco aninhos voando para o céu. A cena do funeral do “anjo” é de arrepiar e explica muito o título do filme.


5. Sabemos que a história lida com questões de luto e superação. Como a paisagem de Goiânia e Paraúna contribui para a narrativa emocional do filme?

– O filme é um drama que tem como pano de fundo a nossa belíssima Goiânia. Apesar de ter minha produtora instalada na cidade há 34 anos, meu primeiro filme, VAZIO CORAÇÃO, foi rodado em Brasília e em três cidades mineiras: Uberlândia, Araxá e Patrocínio. Mas eu prometi a mim mesmo que meu próximo filme seria gravado em Goiânia porque eu sempre quis mostrar a capital dos goianos como ela é, e não como os diretores de áudio visual do eixo Rio-São Paulo, que insistem em mostrar Goiânia como se fosse uma roça asfaltada, onde só se ouve música sertaneja e até andam a cavalo pelas ruas. Somos, sim, a capital do sertanejo, mas rotular Goiânia como se tivesse somente isso por aqui é uma falta de conhecimento total. Goiânia é uma cidade moderna, com um milhão e meio de habitantes, planejada para ser a nova capital do Estado lá na década de 1930 e se tornou referência em muitos setores, como oftalmologia, cirurgia plástica, confecção, construção civil, gastronomia e tantas outras qualidades. Isso, sem falar que estamos entre as cidades mais verdes do mundo.
Já a cidade de Paraúna revela uma paisagem diferente, com exóticas formações rochosas e produção de vinhos finos.



6. O que pode nos dizer sobre a relação entre os personagens Vítor e Arthur? Como ela evolui ao longo do filme e qual é seu impacto na trama principal?

– A relação deles é fruto de uma amizade entre duas pessoas vivendo momentos antagônicos, afinal, de um lado, temos um homem de 88 anos, já no pôr do sol da vida, fazendo de tudo para convencer o outro, com 42, a não desistir de viver. O personagem de Othon Bastos se equilibra entre a exatidão de um professor de Física e a sensibilidade de poeta, para mostrar a beleza da vida ao seu amigo mais novo. O desafio é grande, mas o velho Vítor usa todas as armas possíveis para tirar Arthur do sombrio mundo da depressão.



7. O silêncio e a fotografia desempenham um papel importante no trailer do filme. Como você usou esses elementos para criar uma experiência emocional mais
impactante para o público?

– Confesso que o silêncio e a fotografia não foram elementos preestabelecidos ou calculados para passar determinada emoção. Quando eu me sento para escrever um roteiro, deixo-me levar pelo ritmo da história e o perfil dos personagens. É claro que, durante as gravações, esse ritmo pode alterar e arrastar o filme para um determinado lado ou para outro. Depois, na hora da montagem, a gente vai descobrindo o que tem em mãos para costurar a colcha de retalho. Costumo dizer que fazer cinema é tecer histórias com fios de luz.

8. O Voo do Anjo toca em questões como o sentido da vida e a busca por um novo começo. Como essas questões estão conectadas ao arco dos personagens principais?

– A conexão se dá a partir da generosidade, do enorme coração do personagem de Othon Bastos. Vítor é um homem que acredita na vida, que tem consciência do papel de cada um neste mundo. Ele, que ainda vive a dor da perda da esposa que faleceu há pouco tempo, entende muito bem o que se passa na mente e no coração de Arthur, nessa fase de luto. Por outro lado, Arthur sabe que a força dessa amizade pode resgatá-lo do fundo do poço.


9. Emílio Orciollo Netto, que interpreta Arthur, enfrenta um luto profundo. Como o processo de desenvolvimento desse personagem foi trabalhado durante as gravações para refletir seu estado emocional?

– Emílio terminou de ler o roteiro e me ligou muito tocado com a história, afinal, ele tem um filho ainda criança e se colocou no lugar de Arthur para sentir a dor daquele personagem. Foi um autêntico mergulho durante todo o período de gravação a ponto de a gente olhar para ele e enxergar ali um pai vivendo, de fato, a dor do luto. Grande ator!


10. O filme parece ter uma mensagem forte de esperança e renovação. O que você gostaria que o público sentisse ou refletisse após assistir ao filme, especialmente em relação ao tema do luto e da perda?

– É muito difícil encontrar palavras que confortem o coração de quem está vivendo a profunda dor do luto. O tempo parece ser mesmo o melhor remédio, mas enquanto o tempo não ameniza a dor, o conforto de uma amizade sincera, como Arthur encontrou, ou mesmo o tratamento psicológico, como fez Karina, a esposa de Arthur, podem ser a solução. O que não pode é perder a esperança e a fé na vida. Inclusive, tem uma canção no filme cuja letra diz o seguinte:

“Vejo a esperança
fazendo as malas,
o lugar da esperança é aqui
nas ruas, praças, quartos e salas.
Não deixem a esperança partir.
Meu Deus! Se a esperança se for,
seremos apenas zumbis.”

Acredito que a mensagem final do filme é esta: Nunca perca a esperança!
É sempre importante lembrar que esse projeto só saiu do papel graças à  Lei Paulo Gustavo, Secretaria de Cultura de Goiânia e Ministério da Cultura (Governo Federal) além de muitos apoiadores.

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