“Homem com H”: a história por trás do ícone


Jesuíta Barbosa interpreta, de forma bela, a autenticidade e força de Ney Matogrosso

Quando a liberdade é maior que a censura, o grito de liberdade pode quebrar as algemas do preconceito e também do autoritarismo. Em “Homem com H”, filme dirigido por Esmir Filho e estrelado por Jesuíta Barbosa, acompanhamos a história de um dos maiores ícones culturais do país e sua relevância como artista e ser humano.

Na trama, vemos as diferentes fases da carreira do cantor Ney Matogrosso — desde a infância, passando pela adolescência até a vida adulta. Uma jornada através do tempo que acompanha um rapaz de origem humilde, que quebra preconceitos e se torna um artista influente.

Ney enfrentou o machismo do pai Antônio (Romulo Braga) e teve uma relação complexa com a era militar brasileira. A serviço da Aeronáutica em 1959, também enfrentou censura e ameaças à sua carreira como artista durante a ditadura. Apesar de ter sido, ironicamente, o local onde começou a descobrir quem era, a Aeronáutica também o levou a enfrentar a realidade do regime. 

Em 1971, Ney Matogrosso foi indicado para o “Secos & Molhados”, fazendo um teste que agradou a João Ricardo. Tornou-se, então, vocalista da banda e, em 1973, o primeiro álbum foi lançado. “Secos & Molhados” (o álbum leva o nome da banda) foi um sucesso e vendeu mais de 700 mil cópias.

Sempre discreto sobre sua vida amorosa, Ney revelou que Cazuza foi um dos grandes amores da sua vida. Além dele, mencionou ter tido um relacionamento de 13 anos com Marco de Maria, um médico que faleceu em decorrência da AIDS. Em entrevistas, expressou que nunca se encaixou em rótulos e defende a liberdade sexual. 

Um dos pontos altos é sua transformação para a carreira solo. Ney, que se via como “bicho”, se reinventou, viu que agora era diferente, e que sua identidade era uma arma de poder contra tabus e dilemas sociais de 1975.

Seu primeiro álbum solo foi “Água do Céu – Pássaro”, marcado por sua estética transgressora, letras ácidas e danças com movimentos levemente eróticos. Ele lançou diversos álbuns, incluindo sucessos como “Bandido” 1976), “Pecado” (1977) e “Feitiço” (1978), consolidando-se como um dos grandes nomes da música brasileira.

Com um elenco estelar, a trama conta com Bruno Montaleone, Rômulo Braga, Hermila Guedes, Júlio Reis, Carol Abras, Mauro Soares e Lara Tremouroux. Além do protagonista Jesuíta Barbosa, juntos, eles contam a história do ícone que até hoje vive o legado de sua arte.

Para o site Omelete, Ney falou sobre sua história e também da importância do filme:

A primeira coisa que eu falei com o Esmir [Filho, diretor e roteirista do longa] foi que dizem muita coisa, escrevem muita coisa ao meu respeito que é loucura, que é mentira. Nesse filme não pode ter mentira, tudo que a gente colocar tem que ser verdade. E eu fiquei satisfeito quando assisti, porque tudo que está ali é verdade”, comentou.

O filme apresenta uma trilha sonora composta por alguns dos maiores sucessos de Ney Matogrosso, incluindo “Rosa de Hiroshima”, “Sangue Latino”, “O Vira”, “Homem com H” e “Poema”. Essas músicas ajudam a transportar o espectador para as décadas de 1970 e 1980, períodos cruciais na carreira do artista.

Para interpretar Ney Matogrosso, Jesuíta Barbosa passou por um intenso processo de preparação. Ele estudou minuciosamente os gestos, a postura e a forma de falar de Ney, além de assistir a apresentações ao vivo do cantor. Essa dedicação resultou em uma caracterização que impressionou o próprio Ney, que afirmou: “O Jesuíta parece comigo”.

O figurino também foi essencial para a construção do personagem. Criado com base nos trajes icônicos que Ney usava nos palcos, ele reflete não apenas seu estilo ousado, mas também sua personalidade irreverente e libertadora. As roupas, aliadas à performance de Jesuíta, ajudam a recriar momentos históricos da música brasileira com autenticidade e emoção.

Ney Matogrosso teve uma relação marcante com sua mãe, dona Beita de Souza Pereira (Hermila Guedes). Ela foi fundamental na sua formação e apoio em sua jornada, principalmente na infância, quando ele ainda buscava entender sua identidade.

Vale a pena conferir “Homem com H” nos cinemas. O longa não é apenas uma cinebiografia cultural, mas uma forma de mostrar a importância do Ney, sua coragem, e a resiliência ao assumir sua identidade e liberdade de expressão.

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