“Liberdade? é o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e aguento-a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo.”
Trecho do livro “Água Viva”, de Clarice Lispector.

Clarice vive — entre o real e o imaginário
Falar sobre uma escritora nunca é fácil. Não tem como explorar a vida de uma pessoa que conta histórias sem entender quem realmente essa pessoa foi, nem só para a família, mas também ao leitor.
“Lispectorante” já está encantando os cinemas de todo o Brasil. O longa, que conta a história de uma artista plástica recém-divorciada que atravessa uma crise existencial, mergulha na cidade natal onde ela descobre uma antiga casa de Clarice Lispector, um espaço de reconexão.

Um dos pontos negativos da trama é que ela se distancia do verdadeiro eu da escritora. Falta mergulhar mais profundamente em seus livros, e na sua trajetória como mulher.
Embora o filme tente abordar a casa onde ela viveu, acaba se perdendo ao apostar em metáforas e abordagens abstratas para representá-la. Faltou contar quem realmente foi Clarice, e não apenas usá-la como símbolo.
Marcélia Cartaxo, que interpreta Glória, a protagonista do longa, consegue explorar bem essa dimensão mística da personagem, que adentra o universo onírico de Clarice Lispector. No entanto, sinto que faltou aprofundar mais os sonhos e suas histórias. Em alguns momentos, a conversa entre Glória e Clarice parecia abstrata, como se buscássemos uma figura sólida que nunca se revela completamente.

Se a trama aprofundasse mais na infância de Clarice no Recife, cidade que acolheu sua família ucraniana em fuga da perseguição aos judeus que se espalhava pela Europa na época, poderia oferecer uma perspectiva mais completa sobre sua formação.
O longa conta com Marcélia Cartaxo, Pedro Wagner, Grace Passô, entre outros. Mesmo com o elenco enxuto, a trama busca transmitir algo místico da essência de Clarice Lispector. Embora não entregue tudo o que o público espera, o trio apresenta boas atuações, o que é um ponto positivo na tentativa de representar a escritora com verdade.

Uma curiosidade sobre o longa é que o nome da protagonista, Glória Hartman, faz alusão às iniciais de um dos grandes clássicos de Clarice Lispector, “A Paixão Segundo G.H.”
Vale a pena conferir “Lispectorante” nos cinemas. Mesmo sem explorar totalmente a história de Clarice, o filme consegue fomentar o lado mais sensível que ela carregava em suas histórias.